“Pessoas tem modos diferentes de fugir na da realidade. Algumas comem e depois sentem culpa; outras se enterram nos livros de ficção pra esquecer da verdade, leem romances pra preencher a falta de história romântica… Tem gente que se afoga na bebida ou qualquer droga, se corta… Umas tentam fazer os outros felizes pra compensar a própria infelicidade. Eu coloco os fones de ouvido e ligo música no volume máximo.
“Ele passa a mão no seu cabelo enquanto você chora, até mesmo quando o problema é ele. Fica repetindo coisas doces e amáveis o tempo todo. Você acredita porque a mentira é mais suave do que a verdade. Acredita porque essa doçura é rara demais para ser desperdiçada. Você diz que o quer para sempre, mas ele já está pensando em qual vai ser a da próxima semana. A próxima garota que será apenas a próxima que irá sofrer porque, no final, ele vai acabar voltando para você. Todo domingo ele vai lhe ligar com a voz embriagada de quem acabou de acordar às três da tarde – há essa hora, você já vai ter feito mais do que ele fez o mês todo. E vai começar a falar sobre como se arrepende por ter feito de novo aquilo que jurou que jamais faria. Vai pedir para voltar porque no final do dia nenhum cabelo tem o cheiro melhor que o seu. E vai reclamar que essas garotas de hoje em dia não gostam de pegar na mão em público. Mas você gosta. E é por isso que ele gosta de você. Porque ele também faz parte dessa geração-vergonha que não curte pegar na mão durante o cinema, que vai logo para os amassos e o qual-seu-telefone-para-que-eu-nunca-ligue-por-engano. Mas você, não. Você pega na mão durante o filme, a praça, o jantar, o café-da-manhã… Você ama pegar na mão e olhar nos olhos. E ficar horas olhando nos olhos para ver se consegue tirar mais um pouquinho da alma dele. Se consegue desvendar mais um pedacinho desse enigma. E, assim que percebe que está conseguindo, ele vai embora outra vez. Porque nada o apavora mais do que alguém com a capacidade de decifrar seus medos. E você sabe. Você sabe como ele odeia escuro e tem pavor da solidão. Sabe como ele grita para calar o barulho mental que ele possui. Sabe como ele odeia partir tanto quanto você odeia vê-lo ir. Sabe, mas não entende. E por isso jura que não vai atender a ligação no domingo, mesmo sabendo (e não entendendo o porquê) que você vai sorrir quando o nome dele aparecer na tela. É frustrante. Você tem doutorado em defesa pessoal, é PhD em não se deixar abalar por nada. E se derrete toda vez que ele diz seu nome. Por quê? Porque o amor é assim. Ele é fanático por Beatles e você só conhece o refrão de Hey Jude. Ele aprendeu a tocar violão durante um verão tedioso, e você faz piano há sete anos sem aprender nada. Você sabe de cor a ordem de todos os acontecimentos de Harry Potter enquanto ele ainda não terminou de ler o Pequeno Príncipe. Tem tudo para dar errado. Mas, ainda assim, o som da voz dele continua lhe acalmando. Por quê? Porque o beijo dele ainda é mais viciante que qualquer livro que você já tenha lido. Porque os braços dele ainda são o melhor esconderijo do mundo. Vocês não têm nada em comum. Você fala francês e ele palavrão. Ele anda de skate e você ainda não tirou as rodinhas da bicicleta. Não pode ser amor, certo? Errado. Não deveria ser. Mas isso não impede nada. Não enquanto ele continuar ligando todos os domingos para dizer que sente a sua falta.
“Eu aprendi que não devo me importar com comentários que não vão mudar minha vida.
“Somos delicadas, frágeis, damos conta de mil coisas ao mesmo tempo, temos a famosa intuição feminina, doemos e surtamos, somos doces e amigáveis, sempre com um sorriso atrás do batom perfeitamente vermelho, mas não se engane ao pensar que pisará no nosso ego. Também temos um lado escuro, temos venenos dos mais eficazes, beijos que entorpecem, poder, loucura, sedução. Somos mil mulheres em uma…
“Bonitas mesmo somos quando ninguém está nos vendo. Atirada no sofá, com uma calça de ficar em casa, uma blusa faltando um botão, as pernas enroscadas uma na outra, o cabelo caindo de qualquer jeito pelo ombro, nenhuma preocupação se o batom resistiu ou não à longa passagem do dia. Um livro nas mãos, o olhar perdido dentro de tantas palavras, um ar de descoberta no rosto. Linda.
“Era só uma brincadeira, uma simples atração, e agora você me chama de amor. E agora você diz que gosta dos meus defeitos, e me aceita (e me gosta) do jeitinho que eu sou. E agora você diz que gosta do meu jeito de menina mimada, e que daria tudo para estar perto de mim e desfazer o meu bico quando eu estiver emburrada. E agora você me quer ao teu lado como tua garota, tua namorada. Me coloca nos teus planos e diz que não abre mão de me fazer feliz. E agora a gente briga feito um casal. Você me acorda e me coloca pra dormir, todos os dias. E ainda discute comigo dizendo que é maior e mais forte que eu (tudo bem, eu só tenho um e sessenta e pouco…). E agora eu sinto ciúme, faço birra, te pirraço. E você? Me chama de linda! Linda! Mas lindo é você! Era só uma brincadeira, e agora a gente brinca de se gostar. Brinca de se amar. E percebe que deixou de ser brincadeira faz tempo.
“Um dia você vai encontrar o homem da sua vida. Seu melhor amigo, sua alma gêmea, aquele que você poderá contar seus sonhos. Ele vai tirar seu cabelo dos olhos. Te enviar flores quando você menos esperar. Ele vai ficar admirando você durante os filmes, mesmo que ele tenha pago 8 reais para assistir. Ele vai te ligar para dizer boa noite só porque ele sente sua falta. Ele vai olhar no fundo de seus olhos e dizer: ‘’Você é a garota mais bonita do mundo.’’ E pela primeira vez em sua vida, você vai acreditar.
“Mas a lição que eu aprendi é que não vale a pena consertar um carro pela décima vez. É mais fácil comprar um novo e fim de papo. Afinal, eu bem que tentei consertar meu relacionamento com algumas pessoas e só ganhei mais e mais poses e menos e menos verdades. Ainda que doa deixar pessoas morrerem, se agarrar a elas é viver mal assombrado.
“Eu falo tanto em mudanças mas no fim eu sou o único que não mudou, ainda tenho os mesmo sonhos, desejos e pensamentos. Meus medos continuam sendo os mais bobos, o medo da perda, o medo de um dia me esquecerem, o meu maior medo é de voltar a amar, ou será que meu maior medo é de não ser amado ?